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Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Abril - Maio - Junho - 2013 - nº 56

Editorial


Medicina Translacional


Em Ciência sempre surgem novidades. E, como a Medicina é um campo do conhecimento que se fundamenta na Ciência (porém não somente nela, é sempre bom lembrar), cada vez mais temos novidades na Medicina. Uma delas, de surgimento recente, é a Medicina Translacional, novo termo de que ouviremos falar bastante. O que será isso, e o que esse novo conceito teria a ver com nossa atividade profissional?

Antes de tudo, seria bom buscar o significado do termo lá na pesquisa, na investigação, de onde é oriundo. Pesquisa translacional seria a pesquisa que iria desde a Ciência Básica até a aplicação prática do conhecimento gerado pela pesquisa básica. No caso da Medicina, Medicina Translacional seria, portanto, aquela que abarcaria desde o conceito gerado numa investigação médica básica até sua aplicação na prática clínica ou cirúrgica.

Por exemplo, imagine o leitor que se tenha identificado uma nova proteína presente na membrana celular que possibilite o desenvolvimento de uma medicação, primeiro testada com sucesso em animais e depois também com sucesso em humanos, proporcionando a cura do diabetes do tipo 2. Até aí nada de novo, porque sabemos muito bem que esse é o caminho normal da Ciência: os pesquisadores básicos, que vivem no laboratório e na bancada, descobrem as novidades referentes ao meio celular, subcelular e molecular; depois vêm aqueles que testam essas descobertas em animais e desenvolvem medicamentos ou testes diagnósticos para
doenças; finalmente, esse conhecimento
é aproveitado por clínicos especializados que experimentam os achados em seres humanos, e só depois dessa fase podemos dizer que o conhecimento foi, afinal, aplicado. E é claro que só se pode dizer que houve sucesso depois de aplicado em grande número de pessoas, como sabemos com respeito aos medicamentos.

Observe que, nesse longo caminho (que normalmente acaba durando longos anos), os grupos de pesquisa que trabalharam em torno do tema foram grupos distintos e, não raramente, sem comunicação imediata entre eles. Foram o grupo de Ciência Básica, o da experimentação
animal e, finalmente, o grupo de pesquisa clínica. Até chegar ao sucesso, ao resultado final, muito tempo foi gasto. Há uma defa
sagem de tempo entre as descobertas efetuadas pela Ciência Básica e sua utilização na Ciência Aplicada, entre os resultados experimentais iniciais e sua conversão em novos aparelhos, testes diagnósticos e medicamentos utilizados em Saúde.

Notável exceção a essa regra foram as fantásticas pesquisas de Pasteur. Entre suas descobertas básicas e respectivas aplicações quase não houve defasagem de tempo. Pasteur lançou as bases da moderna Microbiologia, ao mesmo tempo
em que influiu na Agricultura (pesquisas
sobre a fermentação) e Medicina Preventiva (vacinas). Todos conhecem a notável obra de Pasteur. Obviamente que, sem suspeitar disso, Pasteur (que sempre andou na frente do seu tempo) é um belo exemplo do que hoje se está conceituando por Medicina Translacional.
Outro caso é o de Jenner, que (também sem saber) praticou uma espécie de Medicina Translacional quando da descoberta e uso da vacinação. E não podemos esquecer também de nosso compatriota também notável, Carlos Chagas, que sozinho fez quase tudo sobre a doença imortalizada pelo seu nome: só
faltou identificar um medicamento que a curasse. Mas aí já seria demais para uma só pessoa! Os três já praticavam a Medicina Translacional.

A proposta da Medicina Translacional é, portanto, acelerar esse longo caminho. Representando um recente movimento da comunidade médica internacional, objetiva a estruturação de grupos de pesquisa médica interdisciplinares e multidisciplinares, em que naturalmente ocorre a colaboração entre pesquisadores da área
básica e aqueles que atuam na área profis
sional, clínica, cirúrgica ou epidemiológica, todos com foco no desenvolvimento de novas tecnologias aplicadas à Saúde.

Para que isso aconteça, contudo, de forma
eficaz, é preciso que os pesquisadores que se dedicarão à Medicina Translacional recebam um treinamento específico para aprenderem a trabalhar como verdadeiras equipes interdisciplinares, em que processos muito mais complexos estarão em jogo. Para o pesquisador básico haverá o desafio de precisar compreender como aquilo que descobriu cumprirá uma trajetória até utilização prática final, e ele deverá ser capaz de passar ao colega clínico ou cirurgião informações muito claras e objetivas do conceito de sua descoberta; para o clínico ou cirurgião
da “outra ponta”, há o desafio também de estar permanentemente atualizado com a parte básica específica da Medicina que lhe possibilite entender a linguagem do colega atuante na base, como também imaginar como o novo conhecimento poderá ter sucesso em sua área de ação.

Curioso como a especialização e a superes
pecialização acabam, no fim, por exigir do especialista que domine conhecimentos que não sejam exclusivos de sua área, mostrando, mais uma vez como tenho insistido em editoriais anteriores , que o conhecimento geral, em qualquer área (mas principalmente na área médica), é indispensável como lastro do bom profissional, em qualquer especialidade em que vá atuar.

Estamos na era do trabalho em equipe, da valorização da síntese e da atuação em regime de colaboração.

O desenvolvimento pleno da genômica, proteômica, uso de células-tronco com
finalidades terapêuticas, Medicina regenerativa, Medicina da reprodução, Neurociência aplicada à Medicina e outras áreas mais, de grande complexidade tecnológica, só será obtido mediante, certamente, a incorporação e prática desse novo (ou antigo?) conceito de Medicina Translacional.
Um bom ambiente para a prática adequada da Medicina Translacional deverá proporcionar aos pesquisadores infraestru
tura abrangente, completa e sofisticada; o problema em estudo deverá ser conhecido da equipe em mínimos detalhes, inclusive ao nível molecular; a equipe deverá estar preparada para executar estudos em humanos com requintes de complexidade e precisão científica, para que o conhecimento, “da bancada à beira do leito”, possa ser transferido num processo efetivo e útil à prática médica.

Muitos vão além e advogam: os problemas clínicos não elucidados deveriam constituir um desafio para os clínicos ou cirurgiões se integrarem às equipes de Ciência Básica com o objetivo de buscarem a solução adequada através da pesquisa, que deve ser sempre inter e multidisciplinar. Idealmente se deveria romper o limite da área biomédica, em que por comodidade muitas vezes ficamos, e buscar ativamente novos conhecimentos e colaborações nas Engenharias, na Física, na Química, na Economia e em muitos outros campos do saber. Tudo isso objetivando a aplicação prática em benefício do paciente.

É evidente que estou falando em termos de pesquisa e a maioria de nossos hospitais, inclusive os universitários, não dispõe ainda de estrutura adequada para a prática da Medicina Translacional. Muitos, até universitários, não dispõem sequer da desejável proximidade geográ
fica entre a “bancada” e o “leito”.
Mas, tudo evolui: torço para que isso aconteça o mais brevemente possível e também para que os médicos práticos, embora não engajados de corpo e alma nesse tipo de atividade (mesmo porque isso não é função primordial deles), possam ficar atentos ao novo (ou velho?) conceito e fazer suas observações, que eventualmente podem redundar em descobertas também. Por que não?


PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF (Niterói-RJ)
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Editor da revista Conduta® Médica


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