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Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Janeiro - Fevereiro - Março - 2012 - nº 51

Editorial


O Médico diante da Morte


Seguramente podemos afirmar que o médico, em geral, não se encontra bem preparado para lidar com um fenômeno com o qual vai se deparar com frequência ao longo de sua vida profissional: a morte. Muitas escolas médicas, preocupadas com a questão, procuram implantar em seus currículos a disciplina de Tanatologia, na tentativa de oferecer compreensão e treinamento adequado para o enfrentamento do problema, mas podemos dizer que tais iniciativas ainda são poucas e modestas.


A questão começa pelo próprio médico que, em geral, tem grande dificuldade em aceitar a própria morte, evento que fatalmente ocorrerá, algum dia... E se complica diante do compromisso aceito pelos médicos de promover a cura, buscando-a, muitas vezes, de maneira exageradamente obstinada, esquecendo-se de que muitas curas esbarram em grandes limitações, em casos e situações. Isso termina por gerar fantasias de onipotência que atrapalham o exercício profissional.


É significativo que tradicionalmente os estudos da faculdade de Medicina começassem pela anatomia e pelo contato com os cadáveres, corpos mortos. As habituais “brincadeiras” dos estudantes de Medicina no anatômico só denunciam sua grande ansiedade perante aqueles cadáveres que já foram animados, mas que, por força de fenômeno ainda não totalmente compreendido, o deixaram algum dia de ser. E só mais adiante o aluno de Medicina viria a ter contato com o vivo. Ainda bem que, na época atual, o encontro com o animado acontece bem mais precocemente, nos postos de saúde e em outros ambientes de ensino, já no começo do curso médico.


Hoje, com o prolongamento da vida em função do uso de sofisticada aparelhagem, nos centros de terapia intensiva e em outras unidades hospitalares ultraespecializadas, o médico se vê às voltas com o problema da morte de forma ainda mais complexa, situação que se torna a cada dia mais comum, exigindo preparo profissional para enfrentá-la. Mas persiste ainda a falta de treinamento correto para encarar a questão além disso, no fundo, não é muito confortável falar sobre o assunto, nem mesmo no âmbito das faculdades de Medicina, ainda mais que pouco sabemos sobre a morte. É assunto que fica mais no campo da religião, da filosofia ou mesmo da literatura. Mais cômodo ainda se não precisasse ser abordado, não é? O ideal seria propiciar aos estudantes de Medicina orientação mais substancial de cunho psicológico, ingressando fundo na Tanatologia, preparando-os para o que enfrentarão na futura vida profissional.


Nesse aspecto, tive pessoalmente uma experiência bastante interessante e rica, decorrente de período de mais ou menos 20 anos, em que colaborei, como coordenador, do Curso de Especialização em Medicina Interna ministrado pelo saudoso professor Hélio de Souza Luz, na Santa Casa do Rio de Janeiro. Atento à importância dos aspectos psicológicos e psíquicos que envolvem a prática médica, em qualquer especialidade, o professor Luz observava cuidado especial no preparo dos especialistas clínicos quanto aos assuntos do âmbito psicológico e o estudo referente ao problema da morte constituía uma das preocupações do mestre e do seu curso. Há um livro muito interessante do professor Luz, chamado “O Médico, Essa Droga Desconhecida”, em que ele sumariza muitas de suas inesquecíveis aulas, inclusive as que tratam da Tanatologia. No capítulo intitulado “O Clínico Diante da Morte” o professor Luz começa com uma referência lapidar do grande poeta Mário Quintana: “tenho grande curiosidade de saber como é a outra vida, mas nenhuma pressa”. O professor Luz, com seus característicos bom humor e fina ironia, apresenta nesse capítulo uma série de pensamentos sobre a postura do médico perante a morte, que seriam muito úteis para cuidadosa leitura por parte de todos os colegas. Lembra ele que a crença religiosa dos médicos interfere grandemente na sua postura perante a morte: o ateu vê na morte a extinção da consciência, enquanto o espiritualista (reencarnacionista ou não) espera a libertação da consciência para uma vida depois da morte, cujas nuances são concebidas em função de cada religião específica. Tudo isso, adverte o professor Luz, molda o pensamento e os sentimentos dos médicos perante a morte e não pode ser ignorado. Mesmo porque muitos médicos exercem a profissão com base em conhecimentos científicos mas nem por isso abandonam suas crenças religiosas pessoais. E até entre cientistas há os que acham que a consciência finda quando as células cerebrais morrem e os que advogam que a consciência sobreviveria ao fenômeno da morte. Engana-se quem pensa que os cientistas não cultivam, bem lá no fundo, suas convicções pessoais, quaisquer que sejam elas...


Hoje podemos dizer que os conhecimentos a serem levados ao alunado de um curso de Tanatologia não deveriam se limitar apenas aos pertencentes ao terreno da Teologia, da literatura, da Psicologia prática ou da interpretação psicanalítica. Isso porque perspectivas novas se delineiam no horizonte, capitaneadas pela Ciência, através do emprego de seu método de trabalho, o consagrado método científico. E vêm da Ciência as novidades que podem tornar mais interessantes e mesmo polêmicos os estudos de Tanatologia. Há uma série de pesquisadores sérios e com formação científica sólida que atualmente estudam a morte em busca de informações que possam trazer luz sobre o fenômeno. Podem, por seu turno, e vão, certamente, gerar mais discussão. Mas isso é bom, porque a Ciência não pode se apequenar diante dos desafios e não pode fugir de qualquer questão com que é defrontada. Investigar, o que quer que seja, é escopo da Ciência.


Duas dessas contribuições me vieram às mãos por intermédio de alunos e as achei muito interessantes. Por isso resolvi, no presente editorial, fazer referência às duas, pois merecem reflexão. Ambos os estudos abordaram as chamadas “near death experiences”, ou “experiências de quase-morte”, narradas por pessoas que estiveram muito próximas da morte mas que se recuperaram, relatando aquilo por que passaram. Curiosa é a sensação de bem-estar que muitos dos pacientes relataram durante a vivência da experiência limite. Os trabalhos foram publicados no The Lancet, revista médica que não necessita de qualquer apresentação e em Resuscitation, periódico que também dispensa comentários. O Dr. Pimm van Lommel, da Divisão de Cardiologia do Hospital Rijnstate, de Arnhem, Holanda, e colaboradores, publicaram um interessante trabalho na afamada e rigorosa revista The Lancet, intitulado: “Near-death experience in survivors of cardiac arrest: a prospective study in the Netherlands”. A referência é Lancet 2001; 358: 2039–45. Num estudo com 344 pacientes que tiveram parada cardíaca, o Dr. Lommel achou 62 casos (18%) de “experiências de quase-morte”. Já o Dr. Sam Parnia, do Hospital Universitário e do Instituto de Psiquiatria de Southampton, e colaboradores, publicaram um artigo na revista Resuscitation intitulado: “A qualitative and quantitative study of the incidence, features and aetiology of near death experiences in cardiac arrest survivors”. A referência é Resuscitation, 48 (2001) 149-156. Estudaram 63 sobreviventes de parada cardíaca e encontraram 11,1% de recordações de “experiências de quase morte”.


Desde 2001, ano da publicação dos dois artigos, muitos grupos de cientistas vêm se dedicando ao estudo sério da Tanatologia, o que certamente resultará em bastante material de discussão para enriquecer nossa compreensão acerca do fenômeno da morte. De qualquer modo, já é tempo de a formação médica, de graduação ou de pós-graduação, contemplar devidamente a Tanatologia nos currículos de ambos nos níveis de cursos médicos.


PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF (Niterói-RJ)
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Editor da revista Conduta® Médica


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