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Ano XVI - nº 62

Abril - Maio - Junho - 2011 - nº 48

Editorial


Reprodução Assistida e Nobel de Medicina



O Prêmio Nobel em Medicina e Fisiologia de 2010 foi conferido a Robert Geoffrey Edwards, conhecido pesquisador inglês da área da reprodução humana, cujo notável feito foi o primeiro caso bem sucedido de fertilização in vitro em seres humanos já registrado. Edwards nasceu em Batley, na Inglaterra, em 1925. Doutorou-se em Medicina em 1955, pela Universidade de Edimburgo, e é professor emérito em Cambridge. O trabalho de Edwards finalizou de forma bem sucedida os esforços anteriormente feitos por outros investigadores, que obtiveram a fertilização in vitro em animais, em especial em coelhos. Edwards teve sucesso pela primeira vez em humanos. A técnica desenvolvida por ele permitiu que mais de quatro milhões de casais (número estimado até o momento) portadores de impedimentos – como obstrução de trompas de Falópio ou azoospermia – pudessem ter um filho biológico. É importante considerar a colaboração do colega de Edwards, o ginecologista Patrick Steptoe, já falecido, em 1988, no sucesso da empreitada.


Não se pode limitar a contribuição de Edwards e de Steptoe somente à questão da obtenção da gravidez, mas principalmente ao fato de as pesquisas que levaram ao sucesso da fertilização in vitro terem permitido o entendimento dos mecanismos finos de interação entre gametas, indispensáveis para levar a termo a gravidez do chamado “bebê de proveta”, como também terem possibilitado elucidar outras situações muito investigadas no campo da reprodução humana, como o caso de mulheres que engravidam e abortam repetidamente, por exemplo. O curioso é que a técnica deriva de estudos de reprodução de peixes e aproveita a injeção citoplasmática de espermatozoides, quando um deles é inserido no óvulo.


Fato é que a introdução da técnica no terreno da medicina prática originou certos abusos e distorções, o que levou a medidas balizadoras por parte das autoridades responsáveis pela fiscalização do exercício da medicina. Recentemente o Conselho Federal de Medicina, considerando uma série de questões – tais como a importância da infertilidade humana como problema de saúde, a legitimidade de se tentar superá-la, os avanços científicos, a efetividade das técnicas de reprodução assistida e a necessidade de harmonizar o uso das técnicas desenvolvidas com os princípios da ética médica –, baixou uma resolução (a de número 1957/2010, publicada no Diário Oficial da União em 6 de janeiro de 2011) que estabeleceu normas éticas para a utilização das técnicas de reprodução assistida.


O caso do Nobel de Medicina para Edwards é um dos que ligam intimamente a pesquisa básica com a aplicação clínica no terreno da Medicina. Nem sempre, na lista dos laureados com o Nobel da Medicina, vamos encontrar situação semelhante.


Alfred Nobel nasceu em Estocolmo, na Suécia, em 1833, e faleceu em San Remo, na Itália, em 1896. Tinha grande interesse por Química, tendo inventado a dinamite e a borracha sintética. Deixou em testamento a indicação para a criação de uma fundação que premiasse anualmente as pessoas que mais tivessem contribuído para o desenvolvimento da Humanidade. Assim, em 1900 foi criada a Fundação Nobel, que atribui cinco prêmios em áreas distintas: Química, Física, Medicina, Literatura (escolhidos por especialistas suecos) e Paz Mundial (escolhido por uma comissão do parlamento norueguês). Em 1969 foi criado um novo prêmio na área da Economia (financiado pelo Banco da Suécia), o Prêmio em Ciências Econômicas, em memória de Alfred Nobel. Esse prêmio não tem ligação com Alfred Nobel, não sendo pago com o dinheiro privado da Fundação Nobel, mas com dinheiro público do Banco Central sueco, embora os ganhadores sejam também escolhidos pela Academia Real de Ciências da Suécia. O vencedor do Prêmio Nobel recebe uma medalha Nobel em ouro e um diploma. O valor do prêmio varia segundo a receita da Fundação obtida nesse ano. Desse modo nasceu o Prêmio Nobel, concedido todos os anos pela Real Academia de Ciências da Suécia.


O primeiro Prêmio Nobel de Medicina foi concedido a Emil Adolf von Behring pela terapia do soro para tratar difteria, em 1901. Diversas descobertas importantes e que hoje nos beneficiam estão ligadas à láurea Nobel em Medicina, como, por exemplo, a descoberta da penicilina, investigações sobre a malária, emprego da luz no tratamento do lupus vulgaris, aspectos da fisiologia da digestão, investigações sobre o sistema nervoso, cirurgia da tireoide, estudos sobre as dioptrias do olho, métodos de sutura vascular, descoberta da anafilaxia, investigações sobre o aparelho vestibular na orelha interna, descoberta do “complemento”, descoberta dos mecanismos do intercâmbio gasoso na respiração, descoberta do metabolismo do ácido lático, descoberta da insulina, invenção do eletrocardiograma, pesquisas sobre o cancro, malária e tifo, descoberta das vitaminas, descoberta dos grupos sanguíneos, descoberta dos citocromos das mitocôndrias, descoberta da função dos neurônios, descoberta da função dos cromossomos na hereditariedade, descoberta do efeito organizador do desenvolvimento embrionário, descoberta da transmissão química dos impulsos nervosos, descoberta da vitamina C como catalisador, descoberta do efeito antibacteriano das sulfonamidas, descoberta da função da vitamina K, estudos sobre efeito dos raios X nas mutações, descoberta do efeito dos hormônios da hipófise sobre o metabolismo da glicose, descoberta do efeito do DDT sobre os artrópodes, descoberta dos efeitos dos hormônios do córtex adrenal, desenvolvimento de vacina contra a febre amarela, descoberta da estreptomicina, descrição do ciclo de Krebs, vacina Salk contra a poliomielite, introdução do cateterismo, síntese do primeiro anti-histamínico, pesquisas sobre ambiente e mutações genéticas, descoberta do mecanismo de estimulação da cóclea, descoberta da estrutura do DNA, mecanismo de transmissão dos impulsos nervosos, metabolismo do colesterol, regulação de atividade gênica em vírus e bactérias, descobertas sobre a fisiologia e química do olho, decifração do código genético, mecanismos hormonais e metabolismo, estrutura dos anticorpos, comportamento e comunicação animal, interação entre tumores viróticos e material genético, descoberta dos hormônios hipotalâmicos, emprego médico da tomografia computadorizada, descoberta do sistema HLA, pesquisas sobre os hemisférios cerebrais, pesquisas sobre as prostaglandinas, formação dos anticorpos, mecanismos do metabolismo do colesterol, princípios do tratamento com drogas, descobertas sobre transplantes de órgãos, descobertas sobre canais iônicos das células, descobertas sobre as fosforilações, descoberta do príon como partícula infecciosa proteica, trabalhos sobre óxido nítrico, descobertas sobre papel de genes e moléculas na divisão celular, descobertas sobre apoptose, invenção e uso da ressonância magnética nuclear, descoberta dos receptores odoríferos, descoberta do Helicobacter pylorii e sua relação com úlcera e gastrite, células tronco e sua função em medicina, descoberta do vírus do papiloma humano e sua relação com o câncer cervical, descobertas sobre o vírus da imunodeficiência humana, descoberta da enzima telomerase nos cromossomos e desenvolvimento da fertilização in vitro, atual conquista feita por Edwards.


De lá para cá podemos contabilizar 193 ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, explicando-se que, em diversas oportunidades, o prêmio foi concedido a mais de um cientista. E podemos listar algumas curiosidades sobre o Nobel de Medicina. O país a ter maior número de ganhadores foi os Estados Unidos, com 72 premiados. Contamos aqui, por convenção nossa, apenas os indivíduos nascidos nos EUA, porque há outros, nascidos em diferentes países e que obtiveram o prêmio depois de se naturalizarem norte-americanos ou de fazerem suas carreiras nos Estados Unidos, pelo menos em grande parte. Aliás, a supremacia norte- americana é coerente com sua produção científica. Os Estados Unidos são responsáveis por cerca de 40% da produção científica mundial. Mas nosso Brasil está progredindo; estamos com mais de 2% da produção científica mundial e avançando a cada ano. Precisamos, ainda, melhorar muito a qualidade de nossa produção, mas isso vem acontecendo... e é bem possível sonharmos com um Prêmio Nobel de Medicina num futuro não muito distante. Após os Estados Unidos, o país com maior número de ganhadores do Nobel em Medicina é a Inglaterra, com 25 ganhadores; depois a Alemanha, com 23; França, com 12; Suécia, com sete; Austrália e Suíça empatam com seis; a Itália tem cinco ganhadores; com quatro ganhadores vêm Áustria, Bélgica e Dinamarca; com três, África do Sul e Hungria; têm duas conquistas a Argentina, a Polônia, a Rússia, a Holanda e a Espanha, e apenas uma têm Japão, Venezuela, Escócia, Portugal, Nova Zelândia e Canadá.


Curioso ainda é o fato de que, até o fim da Segunda Grande Guerra Mundial, os Estados Unidos não tinham a supremacia na área do Nobel em Medicina, que era muito dividido entre Alemanha, França, Inglaterra e outros países europeus. Após a Segunda Guerra Mundial, no entanto, a supremacia norteamericana se acentuou, o que se correlaciona muito bem com as dimensões do PIB norteamericano e com quanto os Estados Unidos investem anualmente em Ciência – que não é pouco. Também se pode observar que muitos ganhadores do Nobel em Medicina, nascidos em outros países, se radicaram nos Estados Unidos e lá fizeram suas carreiras. Se formos contar os Prêmios ganhos por eles como norteamericanos naturalizados, essa supremacia no Nobel médico cresce bastante.


Neste número 48, nossa revista Conduta Médica completa seu 12º aniversário, sempre se esforçando por trazer conhecimento útil e atualização de forma prática ao médico que nos lê. Aproveitamos a oportunidade para agradecer mais uma vez à Diretoria da Unimed Rio, nosso patrocinador, que continua a nos apoiar nessa iniciativa que só tem rendido alegrias e mensagens de estímulo e congratulações por parte dos colegas leitores.


PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF (Niterói-RJ)
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Editor da revista Conduta® Médica


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