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Ano XVI - nº 62

Janeiro - Fevereiro - Março - 2011 - nº 47
 

Editorial


Novas Doenças


Não faz muito tempo um aluno me fez uma indagação, no mínimo curiosa, querendo saber se haveria “doenças novas”. O assunto é interessante, uma vez que os estudos médicos tradicionais enfocam, de hábito, listas e classificações de doenças que parecem se repetir a cada nova edição dos compêndios e dos tratados médicos. A cada nova edição, as mesmas doenças. Ou quase as mesmas... A pergunta, porém, tem sua razão de ser. Porque, realmente, doenças novas são catalogadas de tempos em tempos nas várias áreas e especialidades médicas, e se inserem nos livros em novas edições. Algumas delas pode ser que nem sejam realmente “novas”; talvez existam há tempos, só que não tiveram anteriormente a oportunidade de ser devidamente estudadas. Na história da Medicina há relato de enfermidades desconhecidas que eram classificadas como sendo uma só doença, mas pesquisas em épocas contemporâneas revelaram se tratar de doenças distintas. Surgiram, portanto, “doenças novas” (para os estudiosos), masque já acometiam os seres humanos em épocas remotas. Um caso clássico e tradicional foi o da hanseníase, antigamente conhecida por “lepra”, hoje termo em desuso; a “lepra”, no passado, certamente englobava grupos distintos de doenças que acometiam a pele. Muitas dermatoses de difícil diagnóstico possivelmente foram taxadas e abordadas como se fossem casos de hanseníase. A Ciência e seus progressos nos permitiram saber que muitas referências à “lepra” feitas por textos e descrições clínicas antigas na realidade significavam um leque de possibilidades diagnósticas, não apenas o que hoje conhecemos por hanseníase. A mesma coisa com relação ao câncer, que no passado já foi termo utilizado para denominar um extenso rol de enfermidades, muitas delas (hoje sabemos) nada tendo a ver com uma neoplasia maligna. A própria noção atual de câncer parece estar em mutação, uma vez que, ao se admitir a origem diversa para diferentes tipos de neoplasia, a tendência é ver diferentes tipos de “câncer” como doenças distintas. Lembremo-nos ainda, por exemplo, do diabetes mellitus, nos seus tradicionais tipos 1 e 2, que (a despeito de terem muitos aspectos em comum) possivelmente no futuro poderão vir a serem consideradas duas doenças distintas, com causas e deficiências localizadas em pontos diferentes do organismo. Isso tudo configura o progresso do conhecimento, o avanço da Ciência, novos conceitos que surgem. Quando apareceu, a Aids se apresentou para nós, médicos, como uma nova doença, totalmente desconhecida em termos de etiopatogenia, fisiopatologia, epidemiologia e manifestações clínicas. A despeito das dúvidas e discussão acerca do exato momento em que o primeiro caso teria sido catalogado, podemos dizer que a Aids surgiu como uma “doença nova”, não existindo como tal em edições de livros de Medicina de antes da década de 1980.


Doenças novas, portanto, existem. Precisamos é ter cuidado na definição destas e também com a possibilidade de interferências que não sejam estritamente acadêmicas e científicas na catalogação de “novas enfermidades”. Em especial, parece-me muito importante e pertinente que o médico fique vigilante com relação a novos diagnósticos, novas síndromes ou novas manifestações que não tenham uma sólida base científica de estudos. Tais estudos precisam ser de fato independentes e repetidos por grupos diversos. Por extensão, hoje o médico precisa ficar atento às “novas doenças”. A imprensa leiga e a própria literatura médica têm publicado recentemente artigos alertando médicos e população sobre a “construção” artificial que poderia estar ocorrendo em torno de supostas “novas doenças” ou “novas síndromes”, com as correspondentes criações de necessidades que normalmente vêm a reboque (1).


Como clínico tenho constatado um exagero de rótulos diagnósticos para certas manifestações que, num passado não muito distante, seriam fugazes e naturais para certas fases de vida da pessoa, e que hoje tendem a ser encaradas dentro do conceito de uma nova síndrome, uma nova doença, uma nova enfermidade e (o que é pior) muitas vezes configurando uma evolução aflitiva e desesperançosa.


Ora, em alguns desses casos o que observamos é a criação de uma fantasia e a consequente e inevitável aflição por parte da pessoa que, sentindo-se enferma, parte para a busca do que ela pensa ser uma terapêutica para a sua “anormalidade”. Isso desemboca, via de regra e caso o médico não possua adequado senso crítico, em extensa, demorada e estressante peregrinação por consultórios e diferentes especialistas, semanas gastas com marcação de exames complementares dispendiosos e cuja execução é no mínimo desconfortável e, por fim, no uso de medicamentos também novos, tidos como “perfeitos” para remediar aquela inquietante condição.


Continuo convicto de que muitas queixas que são trazidas pelos nossos pacientes são passageiras e típicas de alguma situação ou de ciclo de vida que estão longe de configurar o que em Medicina denominamos de enfermidade ou doença, como queiram. Permaneço convencido de que certas oscilações da adolescência, climatério, menopausa, tristeza, envelhecimento, ansiedade, diminuição de atenção e muitas outras manifestações naturais de nossa existência biológica, emocional e psicológica não constituem aquilo que a Medicina cataloga sob o nome de doença. E não necessitam, a rigor, de nenhuma terapêutica, a não ser da paciência e da atenção do médico. Falo de uma maioria, é óbvio, ressalvando a minoria que possa precisar, realmente, de investigação e tratamento. Sutis diminuições da libido, “inadequação” sexual, tristeza, ansiedade, variações leves do humor, modificações corporais ou emocionais, ligeiro sobrepeso, pequena deficiência de atenção, são exemplos de questões frequentemente trazidas aos consultórios e que não necessitam, em sua maioria, de extensa e exaustiva investigação complementar e muito menos de intervenção farmacológica. Não deveriam, a meu ver, sequer merecer certos rótulos, que mais aumentam a aflição do coitado do paciente.


A persistência e a intensidade desses sinais e sintomas e a desarmonia que eles estejam causando à pessoa poderão indicar ao médico experiente quando intervir, levando à frente a investigação e subsequente tratamento. Isso sempre constituiu e continuará a ser o que denominamos de bom senso clínico. E o bom senso clínico não é uma abstração, baseia-se na teoria das probabilidades e nas bases científicas que sustentam nossa atividade. Como informa e critica o texto já citado (1), cuja leitura recomendo a todos, estaríamos sob a ação do marketing inadequado, interferindo na área médica, envolvendo indústria farmacêutica, médicos formadores de opinião e meios de comunicação. Isso traria intranquilidade a parte dos pacientes; para outros, reforçaria a esperança de alcançar a saúde e felicidade integrais e perenes, iniciativa clínica e laboratorialmente fadada ao fracasso, como bem sabemos.


No mesmo artigo (1) há uma citação bastante crítica e que deve merecer nossas reflexões, do professor Ray Moynihan, da Universidade de Newcastle, na Austrália: “(...) na Medicina, as idas e vindas normais da vida estão sendo transformadas em doenças lucrativas (...) enquanto que pequenos aumentos nos riscos de doenças futuras estão sendo apresentados como pré-condições cada vez mais amplas (...)”.
Preocupa-me, no âmbito de competência das mais diversas especialidades médicas, a crescente tendência à classificação de certas condições em estratificações, aparentemente com o nobre objetivo da prevenção, mas que também acabam por enquadrar segmentos populacionais cada vez mais numerosos em público-alvo de algum tipo de intervenção. Será que estamos todos doentes e necessitados de algum tipo de terapêutica? Será essa a Medicina de que precisamos?


O que precisamos cada vez mais é da atenção e do uso do bom senso médico. A prevenção de doenças teve um salto excepcional em função do grande avanço da tecnologia a serviço da Medicina, em especial na segunda metade do século XX. Entretanto, todo esse aparato só faz sentido se trouxer mais segurança, tranquilidade, felicidade e bem-estar ao ser humano. É fundamental que os médicos reflitam e usem seu senso crítico para investigarem e tratarem aquilo que realmente necessita de intervenção. E se lembrarem de que ainda é possível (e que faz parte da boa prática médica) despedir-se de um paciente após uma consulta comunicando-lhe que ele não tem nada de sério e que não precisará fazer nenhuma intervenção.


(1) “Sexo, mentiras e remédios”. Seção Ciência, Jornal O Globo, página 42, 01-10-2010.


PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF (Niterói-RJ)
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Editor da revista Conduta® Médica


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