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Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Outubro - Novembro -Dezembro - 2010 - nº 46

Editorial


Medicina e Espiritualidade


A ligação entre Medicina e religiosidade é conhecida desde remotas épocas. A partir do Renascimento, com o surgimento e adoção do método científico, a Medicina se tornou gradualmente científica, ocorrendo a separação entre Ciência Médica e prática religiosa, em especial na cultura ocidental.


O século XX (principalmente na sua segunda metade), entretanto, viu surgirem evidências de natureza científica a indicarem que religiosidade e Ciência Médica não andam separadas como se esperaria. Recentemente têm sido publicados na literatura médica trabalhos científicos abordando o estudo dos mecanismos que explicariam como a fé poderia influenciar resultados clínicos. A partir desses fatos novos, é pertinente e desejável que os médicos se informem sobre tal novidade, predispondo-se a entendê-la de maneira a atender de forma mais completa seus pacientes.


Para que não haja mal-entendidos, cumpre, antes de tudo, estabelecer a distinção entre termos que não devem ser confundidos, como bem assinalam Koenig e colaboradores em sua interessante obra (1). Para esses autores, religião é o sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos que objetivam facilitar o acesso ao transcendente; religiosidade é o fato de um indivíduo acreditar, seguir e praticar uma religião, e espiritualidade seria uma busca pessoal para entender questões relacionadas ao fim da vida, seu sentido, relações com o sagrado ou com o transcendente. Nesse caso, a pessoa poderia ou não envolver-se em práticas religiosas e fazer parte ou não de comunidades religiosas. O objeto das pesquisas a que nos referimos são a religiosidade e a espiritualidade das pessoas.


Qual o valor disso para a prática médica? Ora, não se pode ignorar que muitos pacientes declaram seguir uma religião (em nosso meio, a maioria), e que suas crenças os ajudam a lidar com muitos aspectos difíceis da vida e das enfermidades. Há muitas atitudes dos pacientes em relação à doença que sofrem interferência de suas convicções de natureza religiosa. Vide, por exemplo, a postura de pessoas de algumas vertentes religiosas frente à necessidade de receberem hemoderivados. Por outro lado, é fora de dúvida que crenças pessoais dos médicos (e estes as possuem também!) influenciam nas suas decisões, como, por exemplo, perante questões como a eutanásia, fertilização in vitro ou a simples prescrição de um contraceptivo. Independentemente do que diz a Ciência em seu estágio atual de conhecimento, forçoso é reconhecer que cada médico é também uma pessoa, com suas convicções, inclusive de cunho religioso, a despeito da formação científica que tenha recebido. A Ciência ainda não solucionou todas as questões que afligem ou angustiam o ser humano.


O interessante é que a Ciência mesma vem demonstrando que atividades e crenças religiosas estão relacionadas a melhor saúde e qualidade de vida, ainda segundo Koenig (2), e estudos bem conduzidos mostram que muitos pacientes gostariam que seus médicos conversassem com eles sobre as necessidades espirituais deles, pacientes. Pesquisas têm demonstrado grande relação entre espiritualidade/religiosidade e saúde mental, como menor prevalência de depressão, menor tempo de recuperação da depressão após o tratamento, menor prevalência de ansiedade e menor taxa de suicídio, melhor qualidade de vida e maior bem-estar geral, conforme excelente revisão feita por Lucchetti e colaboradores (3). Alguns resultados clínicos, medidos através de sua expressão biológica, também têm sido avaliados. Os pacientes com maior religiosidade tiveram menores níveis de hipertensão diastólica, de cortisol plasmático e de proteína C-reativa, menor mortalidade cardiovascular, menor nível plasmático de interleucinas (IL-6) e menor mortalidade, segundo Lutgendorf e colaboradores (4). Num estudo em mulheres com câncer de mama, um maior grau de espiritualidade se correlacionou com o número total de linfócitos, de células natural killer (NK) e de linfócitos T-helper e T-citotóxicos, de acordo com Sephton e colaboradores (5).


Nem todas as pesquisas, porém, é bom ressaltar, apontam nesse sentido. Aviler e colaboradores (6), numa investigação sobre o valor da oração intercessória na recuperação de pacientes internados em unidade coronariana, não observaram resultados significativos. Isso nos aconselha cautela na crítica ao tema.


Tudo é muito curioso e nos faz pensar até que ponto não estaríamos tratando, na verdade, de influências do estado psicológico, mas os estudos relacionam os efeitos observados com a religiosidade e a espiritualidade dos pacientes.


É importante destacar que tais investigações vêm sendo publicadas em revistas internacionais de alto fator de impacto, ou seja, revistas tradicionalmente utilizadas por pesquisadores de reconhecido gabarito, como por exemplo o JAMA, o The New England Journal of Medicine e o Annals of Internal Medicine, entre outras.


No terreno do ensino médico, o tema espiritualidade/ religiosidade e sua relação com a Medicina ganha terreno nas principais universidades. A maioria das universidades norte-americanas já mantém disciplina que ensina “Medicina e Espiritualidade” na graduação; mais da metade das escolas médicas da Inglaterra também oferece esses cursos, e algumas escolas médicas brasileiras já possuem cursos de “Medicina e Espiritualidade” em seus currículos na graduação.


Pesquisa científica séria sobre o tema é desenvolvida em centros mundiais respeitados. Programas de residência médica nos Estados Unidos também têm instituído treinamento de natureza prática e teórica sobre o assunto, atestando a relevância dessas questões para os norte-americanos. Em alguns desses programas a disciplina se tornou obrigatória.


É compreensível a dificuldade de muitos médicos em abordarem o tema. Sendo a Medicina atual fortemente embasada em evidências científicas, tudo o que tem conotação transcendental, religiosa e mística foge da linha de formação médica e leva a natural distanciamento da questão. Muitos alegam que tal compreensão seria irrelevante para o tratamento médico, que não competiria ao médico influir nas convicções religiosas dos pacientes, e que tal abordagem não faria parte do tratamento médico. Obviamente a postura científica recomenda muita cautela no trato com assuntos de natureza religiosa, uma vez que Ciência e Religião são dois campos distintos do conhecimento humano, possuindo métodos de abordagem muito diferentes. Por outro lado, faz parte do método científico enfrentar todas as questões que lhe são colocadas, sem preconceitos ou barreiras, senão já não é o método científico avaliando. Isso inclui qualquer questão, mesmo alguma que se insira, por exemplo, no terreno religioso.


O fato é que, cientificamente, fica cada dia mais evidente que a religiosidade influi na doença e que a Medicina e os próprios médicos não podem mais ignorar tal realidade, da mesma maneira que modernamente não podemos desdenhar da importância da relação médico-paciente, do resultado de um excelente exame de imagem ou do valor potencial das células-tronco para a cura de diversas enfermidades. O médico moderno precisa se desvencilhar de preconceitos e barreiras, informando-se e aprofundando-se mais sobre o tema, para melhor tratar seus pacientes, sempre usando a segura ferramenta do método científico.


Até mesmo para uma adequada compreensão sobre a pessoa que tratamos, faz-se desejável que procuremos elementos para nos informarmos mais sobre Medicina e espiritualidade, de modo a colher uma anamnese mais ampla e completa. Koenig (7) chega a sugerir a introdução de outro item na anamnese: a anamnese espiritual, para o que o médico gastaria não mais de dois minutos. É importante ainda alertar que nem todos os efeitos da religião sobre os pacientes podem ser considerados positivos, e o médico deve estar muito atento ao fato. Concepções religiosas de caráter punitivo, fantasiosas ou que prometem curas miraculosas podem gerar conflitos e influenciar na evolução desfavorável das enfermidades, quando não retardarem a introdução do tratamento correto. É bom que se tenha em mente que possíveis efeitos benéficos da religiosidade/ espiritualidade sobre a evolução das enfermidades e bem-estar do paciente não devem excluir a adoção das medidas médicas tradicionais, que representam uma conquista da Ciência e que são usadas, com notória comprovação experimental, em benefício do enfermo. O médico precisa estar atento às convicções espirituais do paciente, sejam estas positivas ou negativas. O conhecimento do assunto pode evitar problemas na relação médico-paciente e favorecer a evolução clínica. O médico necessita saber o momento certo e a maneira adequada de abordar a questão sem melindrar o paciente ou interferir em suas opções religiosas, conforme recomenda a boa prática médica. Ainda aí, compete ao médico identificar essas situações e buscar auxílio na assistência psicológica ou aconselhar o que acha razoável, sempre que preciso, nunca deixando de lado o seu conhecimento e bom-senso, ferramentas indispensáveis para o exercício da boa Medicina.


(1) Koenig HG, Mccullough M, Larson DB, editors. Handbook of religion and health: a century of research reviewed. New York: Oxford University Press; 2001.


(2) Koenig HG. Religion and medicine II: religion, mental health, and related behaviors. Int J Psychiatry Med 2001; 31(1): 97-109. (3) Lucchetti, G; Granero, AL; Bassi, RM; Latorraca, R; Nacif, SAP. Espiritualidade na prática clínica: o que o clínico deve saber? Rev Bras Clin Med 2010; 8(2): 154-8. (4) Lutgendorf SK, Russel D, Ullrich P, et al. Religious participation, interleukin-6, and mortality in older adults. Health Psychol 2004; 23(25): 465-75. (5) Sephton SE, Koopman C, Schaal M, et al. Spiritual expression and immune status in women with metastatic breast cancer: an exploratory study. Breast J 001; 7(5): 345-53.


(6) Aviler, JM; Whelan, E; Hernke, DA; Williams, BA; Kenny, KE; O’Fallon, M; Kopecky, L. Intercessory prayer and cardiovascular disease progression in a coronary care unit population: a randomized controlled trial.  ayo Clin Proc. 2001; 76: 1192-1198.


(7) Koenig, HG. Taking a spiritual history. JAMA, 2004 (291): 23, 2881.


PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF (Niterói-RJ)
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Editor da revista Conduta® Médica


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