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Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Julho - Agosto - Setembro - 2006 - nº 29

Editorial


MEDICINA, CUSTOS MÉDICOS E EDUCAÇÃO MÉDICA


Os custos crescentes com assistência médica têm sido uma preocupação de todos, no mundo inteiro. Tais custos constituem uma queixa generalizada, no setor público e no setor privado, e reduzi-los - ao mesmo tempo em que se pretende oferecer atendimento médico de boa ualidade - é um grande desafio, que transcende a área puramente técnica do exercício profissional da Medicina. Dirigentes, gestores, administradores, economistas e, é claro, médicos, continuamente se debruçam sobre esse importante problema, em busca de soluções adequadas, que contemplem não só a adequação econômica mas a justa oferta de boa prática médica para todos. Não é uma questão fácil de resolver, e os que militam no setor educacional na área médica podem e devem dar também a sua contribuição para que se chegue a uma solução satisfatória para o problema.


É consenso que um bom preparo do profissional, com este motivado por boas ações de educação médica, ajuda grandemente na redução de custos na área de saúde. Não tenho conhecimento se isso já foi medido, se já foi quantificado, mas não tenho qualquer dúvida, pelo menos do ponto de vista qualitativo, de que uma boa formação médica auxilia muito a reduzir custos. Não duvido também de que uma boa educação continuada em Medicina é fundamental para a redução de custos. Hoje em dia, como já é sabido, não basta mais se formar médico, é indispensável se manter atualizado - e as recentes medidas implementadas pelo Conselho Federal de Medicina, atingindo em especial os que se tornarão especialistas a partir de 2006, são uma prova disso. Hoje dispomos, e cada vez mais, de cursos, simpósios, eventos e publicações, todo um conjunto de oportunidades que buscam manter o médico a par das novidades no seu campo de especialização. Seria desejável que essa atualização também ocorresse em Medicina Geral, pois o bom especialista não pode ignorar as novidades que surgem a cada dia nas outras grandes áreas em que não mais atua com freqüência e que, entretanto, são úteis para a sua prática diária.


Ponto de Equilíbrio


Com respeito à educação continuada, dissemos que ela proporciona, sem dúvida, economia de custos na área médica. O médico atualizado acerta mais os diagnósticos, prescreve mais adequadamente os medicamentos, indica com mais segurança os exames a serem feitos. Afinal, estima-se que cerca de mais de 50% dos custos com a saúde advenham de despesas com materiais e tecnologias novas. Incluem-se aqui medicamentos, insumos, material médico-hospitalar e aparelhagens. É inegável que o desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias deu grande impulso à Medicina e tem sido um dos fatores para o prolongamento da média de vida da população mundial. Porém, é preciso que seja encontrado um ponto de equilíbrio. As planilhas de custos com saúde sempre exibem, seja no setor público, seja no setor privado, despesas crescentes e ameaçadoras. Todos os gestores, de qualquer área, mostram preocupação quanto a essa questão.


Mais uma vez é determinante destacar que a educação médica tem grande contribuição a dar nesse aspecto, pois trabalha no sentido de racionalizar a indicação dos exames complementares, a prescrição terapêutica adequada e o acompanhamento do paciente em tratamento. O médico é o agente que solicita o exame, que prescreve a terapêutica e que indica e realiza, muitas vezes, o procedimento. Por isso, é indispensável que ele esteja consciente do seu papel não só terapêutico, mas também de co-participante na geração de despesas. Isso tudo, obviamente, sem cercear a autonomia que lhe é conferida, pelo próprio Código de Ética Médica, que determina a liberdade do médico em indicar e prescrever a conduta mais adequada para o seu paciente, seja diagnóstica, seja terapêutica. O exercício dessa liberdade deve se fazer norteado por boas práticas, alicerçadas no melhor conhecimento científico. Liberdade, no entanto, pressupõe responsabilidade, e odernamente o médico não pode mais ignorar o custo dos exames ou tratamentos que prescreve, procurando evitar desperdícios. Não se trata de cercear a liberdade de prescrever ou de indicar exames, mas sim de fazer tudo isso com consciência, embasamento científico e evitando despesas desnecessárias.


Temos muito a caminhar ainda nesse campo. Informalmente, tive a curiosidade de registrar o número médio de itens de exames laboratoriais com que pacientes chegavam para atendimento em alguns consultórios, e não me causou surpresa o fato da média se situar em torno de 30 itens. A maior parte dos pedidos variava entre 20 e 45 itens, solicitações feitas sempre de uma vez só. Numa situação especial de doença talvez isso se justifique, mas como o achado reflete uma média de exames solicitados em pessoas aparentemente sãs, isso significa que a anamnese e a semiologia não estão sendo adequadamente empregadas. É uma pena, pois também constatei que a grande maioria dos resultados dos exames solicitados era normal, e me pergunto se muitos deles seriam mesmo necessários. É claro que isso reflete achados num levantamento informal e feito sem o apelo ao rigor do método científico, mas qualitativamente nos fornece informação importante.


Não é o caso, portanto, de se advogar uma Medicina puramente baseada na semiologia clássica, pois muitos exames complementares são hoje indispensáveis e acham-se incorporados ao exame periódico de saúde, quando detectamos precocemente alterações que ainda poderão ser revertidas ou proporcionar o adiamento da cronificação de uma enfermidade. É inegável o valor de alguns exames no aspecto preventivo da Medicina. O fato é que muita tecnologia vem sendo empregada sem necessidade, o que vem contribuindo para encarecer e ameaçar inviabilizar a prática médica, pública e privada.


Nesse sentido, a educação continuada me parece uma ação indispensável, colocando ao alcance do médico conhecimento atual de boa qualidade e informando-o sobre novidades em sua área de atuação. E também esclarecendo o profissional sobre a indicação de certo exame ou procedimento. O hábito da reflexão crítica é muito desejável frente à Medicina atual.


Novidades no Oitavo Ano


Estamos festejando, nesta ocasião, a entrada de nossa revista CondutaMédica em seu oitavo ano de existência, mantendo a mesma linha editorial que nos parece a mais adequada quando se trata de proporcionar conhecimento atualizado e de maneira objetiva aos nossos leitores. As informações são bem mais proveitosas, e temos pesquisas sobre isso, quando são veiculadas no modelo que constitui nossa linha editorial: relatos de casos e sessões clínicas, em que os comentários teóricos são feitos a propósito de caso concreto a ser apresentado ao leitor. Como aniversariamos, também aproveitamos a oportunidade para oferecer ao leitor a revista em nova roupagem, com diagramação aperfeiçoada e renovada programação visual, veiculando conhecimentos transmitidos por excelentes profissionais, como são todos os nossos colaboradores, com uma apresentação ainda mais bonita e atraente.


No presente número, a pedido de muitos leitores, estaremos inaugurando uma nova coluna, intitulada A Conduta do Professor, em que um professor responderá a perguntas feitas por nossos leitores sobre a conduta adotada em certas situações médicas. Não poderíamos encerrar este editorial sem compartilhar com nosso patrocinador, a Unimed-Rio, e em especial com sua diretoria, nossa satisfação pelas manifestações de apoio recebidas ao estimulante trabalho de educação médica que estamos realizando, em parceria, há quase oito anos.


PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Consultor Ad Hoc do CNPq e da Facepe
Editor da revista Conduta Médica


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Resumos desta edição

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