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Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Outubro - Novembro - Dezembro - 2006 - nº 30

Editorial


RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE, A GRANDE ESQUECIDA


Um dos aspectos mais negligenciados na formação médica e que continua por merecer mais atenção, tanto por parte dos educadores quanto por parte dos interessados na boa prática médica, é o da relação médico-paciente. O século XX assistiu a avanços extraordinários no campo do entendimento da Psicologia e das emoções do ser humano, proporcionados, entre outros, por vários médicos, dentre os quais poderíamos destacar Freud e Jung.  A Medicina Psicossomática, inaugurada após essas descobertas, passou a ter importância inquestionável e penetrou nas escolas de Medicina.  Ficou claro, depois da aceitação desses conceitos, que não basta ao médico a compreensão e o treinamento de habilidades puramente técnicas para o exercício profissional. Aliás, apenas resgatamos, na era contemporânea, um conceito puramente hipocrático.  No currículo das faculdades de Medicina, a relação médicopaciente costuma ser abordada numa disciplina denominada (na maioria dos cursos) Psicologia Médica. A Psicologia Médica é definida como sendo “o estudo da relação médico-paciente”. Há bons livros disponíveis para quem deseja saber algo sobre o tema: “O Médico, o Paciente e a Doença”, do pioneiro Michael Balint; “Seis Minutos para o Paciente”, de Enid Balint; “A Medicina da Pessoa”, de Danilo Perestrello, e “O Médico, essa Droga Desconhecida”, de Hélio de Souza Luz.


Relação médico-paciente na formação médica


Uma vez que ninguém questiona, nos tempos atuais, a importância dos aspectos psíquicos e emocionais no processo do adoecer – como também na conquista da cura –, seria óbvio que grande ênfase fosse dada ao estudo e à prática da relação médico-paciente nos cursos de graduação em Medicina (o que não se observa, longe disso). Nesses cursos, o tempo dedicado nos currículos a esse importante tema é exíguo e, quando ocorre, o treinamento é feito sem se lhe atribuir a importância que mereceria. Em geral fala-se sobre relação médico-paciente como se se tratasse de mais um aspecto complementar, quase que optativo, na formação médica, e não como se fosse (o que na realidade é) conhecimento básico e indispensável para capacitar o bom médico, independentemente da especialidade que ele for abraçar. Na teoria fala-se muito em relação médico-paciente, mas na prática o treinamento nesses aspectos é insuficiente e descontínuo. O tema é tratado, em geral, próximo da época em que o estudante tem seu primeiro contato com o paciente, no momento do início dos estudos sobre semiologia médica. Depois disso, salvo exceções, nunca mais. É claro que ninguém aprende relação médico-paciente só nesse curto período. Ninguém aprende a interpretar eletrocardiograma, depois de um curso de dois a três meses, se não treinar continuamente sua interpretação. A diferença nesses dois exemplos é que muitos especialistas, no futuro, não precisarão mais saber interpretar minúcias do eletrocardiograma, dependendo de qual especialidade irão seguir, mas todos vão precisar saber como se comportar nas diferentes situações com que se defrontarão na prática com os pacientes.


Outro equívoco muito cultivado é o da “fatalidade”. Segundo esse “dogma”, haveria alguns alunos que ingressam na escola médica dotados de grande talento para o exercício de uma boa relação médico-paciente, e outros não teriam sido aquinhoados pela natureza nesse aspecto. Argumentam, então, que os primeiros deveriam dedicar-se à Psiquiatria e os demais, a outras especialidades. Estes últimos, apregoa a lenda, melhor fariam se se dedicassem a áreas na Medicina “menos necessitadas de boa relação médico-paciente”. Essas áreas seriam, teoricamente, as mais dedicadas a aspectos técnicos e menos necessitadas de contato com o paciente. Podemos imaginar especialidades médicas onde o contato com o paciente é mínimo, mas o médico sempre vai precisar se relacionar com alguém, mesmo que seja um parente ou algum intermediário. Na prática se vê que não existe área na Medicina que dispense a relação médico-paciente – que, de preferência, deve ser a melhor possível. O que pode existir são especialidades em que o contato com o paciente ocorra com menos freqüência ou mesmo com menos intensidade. O equívoco é imaginar que um profissional médico vá poder dispensar treinamento em relação médico-paciente. Os “geneticamente talentosos” nesse aspecto possuem vantagem de saída. Entretanto, os menos talentosos podem aprender, treinar e adquirir também tal talento, da mesma maneira que todos aprendemos, nos cursos médicos, a dissecar cadáveres, pipetar soluções em laboratórios de bioquímica, ler lâminas de tecidos ao microscópio, percutir um tórax em busca de macicez, auscultar o coração para identificar uma terceira bulha ou manejar um transdutor para executar um exame ultra-sonográfico. Também se aprende a ouvir o paciente e a lidar com seus pensamentos e emoções, e também a analisar os nossos, que emergem desses encontros com pacientes e que, por vezes, nos confundem durante o tratamento de alguns enfermos.


Pode-se argumentar que, embora aprendendo todas essas habilidades no curso médico, ao nos dedicarmos a certa especialidade deixemos de praticar algumas delas. Um clínico não costuma operar pacientes, ver lâminas ao microscópio, manejar transdutores de ultra-som. Mas todos os especialistas precisam, em maior ou em menor grau, saber como conversar com os pacientes ou, no mínimo, com a família. Não só saber como conversar, mas também estar preparado para situações psicológicas que surgem nesses encontros e que interferem enormemente na doença e no tratamento do paciente. Ao contrário do que muitos pensam, tudo isso se aprende; para esse aprendizado há técnicas e há treinamento, da mesma maneira que há treinamento para semiologia médica, para execução de atos cirúrgicos, para manejo de aparelhos de tomografia computadorizada. Infelizmente o treinamento na relação médico-paciente é visto preconceituosamente como “menor” e relegado a uma certa improvisação. A idéia geral, muito equivocada, é que relação médico-paciente é coisa para psiquiatra. Também se tem a errônea concepção, reducionista, de que, para atuar bem na relação médico-paciente, ao médico basta ser “bonzinho”, “sorridente”, “afável” e sempre “agradar o paciente”. Tenta-se aplicar aqui regras tomadas por empréstimo do marketing comercial no contato com o cliente, que nem sempre funcionam na relação do médico com o paciente. Muitas vezes, nessa relação, o médico precisa usar de certa energia e até contrariar o paciente. Contudo, há um outro aspecto que precisa ser observado, uma vez que se consolida a idéia de que o aprendizado não termina na faculdade de Medicina, estende-se para além dela, cada vez mais. Se na graduação o treinamento sobre relação médico-paciente encontra-se aquém do desejável, na residência médica, na pós-graduação e na prática profissional ele está mais deficiente ainda, pois não tenho notícia de nenhum movimento, pelo menos de média escala, no sentido de destacar a importância desse treinamento continuado após a graduação.


Base da Medicina em qualquer especialidade


A educação continuada tem sido, cada vez mais, estimulada, não só com o argumento de que o médico precisa se atualizar face ao volume de novas informações que surgem, mas também com a alegação de que o erro médico, com tais providências, poderia ser eficientemente prevenido. Estatísticas mostram, por outro lado, que grande parte (senão a maioria) das denúncias contra médicos têm como motivação problemas na relação médico-paciente, não decorrendo de falhas técnicas ou éticas dos profissionais. Estamos perpetuando, na educação médica continuada, a mesma desatenção que vigora na graduação médica: valorizamos os aspectos técnicos da profissão, alçamos a tecnologia a posição de maior destaque, mas relegamos a plano secundário a relação médico-paciente, base da Medicina em qualquer especialidade. Os congressos e eventos médicos deveriam incluir, em suas programações, discussão de casos e situações, em cada especialidade, para aprimorar nos profissionais o entendimento e a prática da relação médico-paciente, a grande esquecida. Nunca é demais recordar que muitíssimas curas e melhoras são obtidas não por meio de medicamentos ou de procedimentos, mas através da palavra ou da atitude inteligente do médico perante o seu paciente. Isso se treina e também se aprende.



PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Consultor Ad Hoc do CNPq e da Facepe
Editor da revista Conduta Médica


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