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Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Abril - Maio - Junho - 2007 - nº 32

Editorial


OS EGRESSOS DOS CURSOS MÉDICOS



Com a análise dos dados fornecidos pelos egressos dos cursos, a Capes poderá saber, por exemplo, onde se encontram e o que estão fazendo os mestres e doutores em medicina. Será que os mestres estão ensinando, uma vez que o mestrado objetiva, primordialmente, formar professores? Onde estarão eles atuando, e o que estarão fazendo? Serão professores de universidades, serão preceptores de Residência Médica? Ao retornarem às suas instituições de origem estas lhes terão proporcionado condições de atuarem como mestres em medicina? Será que haverá mestres desempregados? Seria uma lástima se isso ocorresse, porque não faria nenhum sentido o altíssimo investimento público empenhado num curso de mestrado para nenhum retorno. Não creio que haja mestres em medicina desempregados. E quanto aos doutores? O doutorado tem por escopo principal formar pesquisadores. Onde estarão nossos doutores em medicina? Estarão pesquisando? Onde estão podendo executar suas pesquisas? Possuiriam condições em seus locais de trabalho para iniciar e manter seus projetos de pesquisa? Ao retornarem às suas instituições, após o término do doutorado, teriam tido o desejável apoio institucional para montar laboratórios que permitissem o desenvolvimento de seus projetos de pesquisa? Isso é vital, pois o gasto na formação de um doutor não pode deixar de redundar na continuidade do processo: o doutor formado deve produzir pesquisa e conhecimento, senão a cadeia estará irremediavelmente interrompida e todo o esforço e verba despendidos não atingirão o objetivo perseguido. Mais ainda: que pesquisas estarão produzindo? Pois não basta pesquisar, é necessário que o produto da pesquisa seja comunicado adequadamente à comunidade científica e que venha a constituir um elo na cadeia da produção do conhecimento, fomentando outras pesquisas e, se possível, gerando patentes, quando for o caso. Há não muito tempo, não na área médica, mas em outros setores, tive conhecimento de manifesto de pesquisadores recém-doutores ou mesmo em término de titulação a reclamar da dificuldade de colocação no mercado de trabalho. Eram muitos e, sob certo aspecto, fica-se a perguntar se faz sentido doutorar indivíduos sem que se tenha uma perspectiva imediata ou mesmo mediata de colocação desses profissionais no mercado de trabalho e também como irão eles desempenhar a função para a qual foram formados em suas instituições de origem. A meu ver, a educação é algo sempre muito bom, mas a afirmação de que quanto mais educação melhor a situação profissional do indivíduo, inclusive do ponto de vista financeiro, muitas vezes não corresponde à realidade ou corresponde a resultado pífio. De nada resolve excelente nível educacional sem as correspondentes oportunidades de trabalho. Não adianta louvarmos estatísticas que apontam conquistas em níveis de qualificação educacional se os profissionais formados se encontram fora do mercado de trabalho ou até mesmo nele inseridos, porém subremunerados e sub-aproveitados.


Por isso mesmo, um diploma de doutorado não é garantia de sucesso profissional. Na área médica as oportunidades continuam a existir, no que concordam os experts no assunto, em que pesem situações onde se constatam baixíssimas remunerações. Todos sempre comentam que é difícil, hoje mesmo, ver médicos desempregados. Mas, acrescento eu, há muitíssimos colegas recebendo remunerações humilhantes. Até hoje, por exemplo, não consigo entender e nem encontro justificativa plausível para a imensa disparidade salarial existente entre as funções de médico (em qualquer nível) ou de professor (as duas sempre referidas por especialistas como “indispensáveis”) se comparadas com as de outras categorias igualmente respeitáveis, generosamente aquinhoadas, tais como as de advogado (promotor, defensor, procurador, juiz) ou profissional de nível superior da área econômica (auditor, fiscal, etc...) no serviço público em geral. Por que não tratar todos esses profissionais de forma isonômica? Que argumentos poderiam justificar tal disparidade salarial no serviço público? Nesse cenário, parece que (ainda!) dificilmente médicos ficam sem trabalho, apesar das mais de 160 faculdades de medicina no país.


Observando a iniciativa da Capes e tentando dela tirar algo de útil para benefício de nossa área profissional, lembro-me de que partimos na frente, em função de já ter ocorrido, em nossa área, alguma iniciativa para obter informações sobre os médicos formados em todo o país. Falo de uma pesquisa muito interessante e útil, que terminou por constituir um livro denominado “Os Médicos no Brasil”, elaborado pela pesquisadora Maria Helena Machado, fruto de uma ampla investigação em todo o país, com o apoio do Conselho Federal de Medicina. São informações curiosas, quando se traçou um perfil bastante interessante e esclarecedor sobre os médicos brasileiros, com algumas surpresas. A pesquisa, obviamente, foi feita usando o método da análise por amostragem. Seria muito interessante que informações registradas periodicamente sobre a situação profissional de todos os médicos, nem que fosse através de pesquisa amostral, fossem colhidas em todo o país e divulgadas periodicamente. Informações sobre egressos de faculdades de medicina, de residências, de cursos de pós-graduação, teriam o mérito de nos situar sobre o que estaria acontecendo com esses médicos após a graduação e também depois de se aperfeiçoarem. Será que a graduação atendeu ao objetivo buscado? Será que o aperfeiçoamento feito redundou numa situação profissional esperada? Como está a situação profissional do médico em seu local de fixação? Qual a demanda por qual especialidade? Essas informações poderiam ainda fornecer orientações para estudantes ainda na graduação e que saberiam quais áreas, dentro do seu campo de interesses e vocação, estariam ofertando maiores oportunidades para o seu desenvolvimento profissional.


Já chegamos a um nível de saturação profissional do mercado e também já estamos em um estágio de organização em que tais informações não são tão difíceis de serem obtidas. Tenho a convicção de que seriam de imensa valia, não só para os médicos que estão se formando, como também para que o país tenha uma melhor distribuição de médicos e de especialistas. No fim de tudo, os pacientes certamente também agradeceriam.


PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Consultor Ad Hoc do CNPq e da Facepe
Editor da revista Conduta Médica



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