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Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Outubro - Novembro - Dezembro - 2007 - nº 34

Editorial


Pós-Graduação e Produção Científica na Área Médica


O ranking dos 30 países com maior número de artigos científicos publicados em revistas altamente qualificadas no exterior foi divulgado recentemente. E o Brasil conquistou, em 2006, a 15a posição – subindo duas colocações, se compararmos com 2005. Trata-se de avanço extraordinário, que só era previsto para mais tarde.


Os dados internacionais, colhidos da Thomsom Corporation – gerenciadora da base de dados ISI (Institute for Scientific Investigation), a mais rigorosa em todo o mundo, mostram que os pesquisadores brasileiros publicaram, nesse ano de 2006, 16.872 artigos nas mais importantes revistas científicas do mundo (apenas cerca de quatro vezes menos que a Alemanha, a segunda do ranking, que publica 8,1% do total mundial). Esses 16.872 artigos publicados equivalem a cerca de 1,92% da produção global, representando um crescimento de quase 7% em relação a 2005, e de 33% em comparação com 2004. É importante destacar que a medicina foi uma das áreas que mais contribuíram para esses números. Com isso, o país ultrapassou a Suécia e a Suíça e começa a ameaçar a Rússia, que apresentou uma queda significativa no ranking. Em 2002 estávamos em 20º lugar; em 2005, subimos para a 17a colocação mundial. Entre os motivos que explicariam o salto, segundo o presidente da Capes, professor Jorge Guimarães, estaria a avaliação mais rigorosa dos cursos. É interessante remontarmos a 1998, quando a Capes promoveu uma radical mudança na pós-graduação stricto sensu em geral, mas que atingiu fortemente a área médica. A partir dessa data, a avaliação passou a ser trienal e estreitamente vinculada à produção científica publicada de docentes e alunos em revistas de circulação internacional, em especial aquelas escritas em inglês. Inicialmente essas mudanças causaram grande polêmica e o encerramento das atividades de cerca de 50% dos cursos da área médica no país. Sem publicação das teses em forma de artigos científicos e em revistas com alto índice de impacto e em inglês, muitos cursos não sobreviveram. Os que restaram se reestruturaram de maneira a transformarem as teses em artigos, publicandoos em revistas internacionais, e passaram por profundas transformações, desvinculando-se das especialidades médicas (o que era, até então, uma tradição na área). Nota-se, por isso mesmo, que tendem a acabar no país cursos de mestrado e doutorado na área médica cuja denominação coincida com a especialidade médica. Isso se sustenta na premissa de que pesquisa médica é, na maioria das vezes, interdisciplinar.


Além disso, o sistema de avaliação da Capes condiciona a manutenção de bolsas e o envio de recursos para o curso à produtividade apresentada pelo pesquisador e pelos seus orientandos, medida pela publicação de artigos em revistas científicas indexadas – ou seja, com um certo grau de atestado de qualidade, entre outros requisitos. O critério é criticado por parte da comunidade científica, pois cria uma pressão para que o cientista publique rapidamente resultados de seu trabalho. A realidade é que esse tem sido o ponto crucial na avaliação dos cursos da área médica pela Capes. Com a conquista do 15o lugar, é forçoso que se reconheça a importância de nossa pós-graduação stricto sensu, onde se dá majoritariamente a produção científica no país, como resultado do desenvolvimento e publicação de teses e dissertações. Os dados internacionais confirmam a relação direta do crescimento da ciência brasileira de alto nível, refletida em publicações de artigos de nível internacional, com a formação de novos mestres e doutores. É um segmento educacional no Brasil que continua a funcionar com uma certa qualidade, e talvez assim aconteça em função de privilegiar exclusivamente o mérito, o esforço e a conquista, como é praxe em países desenvolvidos. Com essa boa notícia, e a manter-se o mesmo ritmo, o país caminha para ocupar, em termos de produção científica, a mesma posição mundial que exibe em função do seu PIB, em cujo ranking mundial ocupa a 10a posição. É sabido que, no caso dos países desenvolvidos, a produção científica mundial se correlaciona estreitamente com o PIB.


Uma avaliação mais aprofundada permite dizer que as áreas que mais cresceram no país, em termos de produção científica internacional, comparando-se os triênios 2001-2003 e 2004-2006 foram: psicologia/psiquiatria (70%); produção animal e vegetal (58%); ciências sociais (52%); medicina em geral (47%); farmacologia (46%); ciências agronômicas (46%); imunologia (44%); computação (44%), e ecologia e meio ambiente (40%). Já se compararmos a nossa produção em 2006 com a de 2005, o crescimento foi: imunologia (23%); medicina (17%); produção animal e vegetal (13%); economia (12%); ecologia e meio ambiente (12%), e engenharias (11%). No topo do ranking mundial estão os Estados Unidos, responsáveis por 32,3% da produção científica do mundo, em seguida a Alemanha (que recentemente deslocou daí o Japão), o Japão em terceiro, a China em quarto e, em quinto lugar, a Inglaterra. A qualidade e o crescimento da pós-graduação brasileira seriam os fatores responsáveis pelo avanço. Parece que a pós-graduação stricto sensu no Brasil está crescendo a uma média anual de 7%. Segundo ainda o presidente da Capes, em março de 2007 contávamos com 2.437 programas de pós-graduação stricto sensu, 3.637 cursos e 148 mil estudantes. No entanto, a distribuição da pós-graduação no país permanece assimétrica, por razões sobejamente conhecidas: 52% dos cursos estão na região Sudeste; 20% no Sul; 17% no Nordeste; 7% no Centro-Oeste, e apenas 4% no Norte (que não tem um único curso na área de saúde). A medicina, conforme ficou claro, vem dando uma expressiva contribuição a essas conquistas da ciência brasileira e, apesar das inúmeras dificuldades que enfrentamos, vem conseguindo ajudar o país a atingir posições surpreendentemente boas no quadro geral das nações.


É preciso, no entanto, que a produção intelectual se converta em patentes, tanto quanto possível, pois nesse ranking estamos muito distantes do 15o lugar, se confrontados com outras nações, inclusive bem menos desenvolvidas do que nós. O progresso gerado pela produção de artigos científicos não tem sido ampliado ao registro de patentes. Inovação é uma condição fundamental para os países que desejam se destacar no mundo globalizado. Há uma relação direta entre PIB, produção científica e de patentes. Os produtos baseados em tecnologia são aqueles que mais geram riqueza. Investir em inovação é sinônimo de crescimento do PIB. Não é, portanto, por acaso, que as três maiores economias do planeta – Estados Unidos, Alemanha e Japão – tenham também os melhores indicadores de patentes e produção científica. O Brasil está na 26ª posição no ranking mundial de países que mais registram patentes internacionais e, entre as nações em desenvolvimento, está em 6º lugar. Em termos de registros de patentes estamos distantes de Rússia, Índia e China, consideradas nações emergentes. Esse dado atesta a falta de conexão entre a produção científica brasileira e o desenvolvimento na indústria. Esse é um problema que talvez possa ser enfrentado através da recente Lei de Inovação, de 2004, e através da contribuição da criatividade e da competência do segmento médico do nosso país.


PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Consultor Ad Hoc do CNPq e da Facepe
Editor da revista Conduta Médica


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