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Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Abril - Maio - Junho - 2008 - nº 36

Editorial


A R 25 e o Mercado de Trabalho Médico



Em boa hora tive acesso a interessante publicação do Conselho Federal de Medicina (CFM) intitulada “O Médico e o seu Trabalho, resultados da Região Sudeste e seus Estados”, de 2005, que aprofunda uma outra, também do CFM, “O Médico e o seu Trabalho”, publicada em 2004. Ambos os estudos são atuais e revelam dados muito curiosos sobre nossa profissão e seu mercado de trabalho. Recomendo a leitura a todos os colegas e, em especial, aos futuros colegas, estudantes de medicina e também a médicos-residentes e pós-graduandos, prestes a se profissionalizarem – e que, mais do que nunca, precisam tomar conhecimento da situação profissional do médico em nosso país, a fim de se orientarem em suas futuras decisões.


As informações relatadas na obra são muitas. Aqui vamos resumir algumas, mais relevantes, para uma análise sintética da situação dos médicos na Região Sudeste e, em especial, no Estado do Rio de Janeiro.


A Região Sudeste concentra cerca de 60% dos médicos do país, e metade desse contingente atua no Estado de São Paulo. O Estado do Rio de Janeiro contribui com cerca de 17,4% dos médicos do Brasil, exibindo a taxa de cerca de 2,75 médicos para cada mil habitantes (a maior relação médico/habitante do país, sendo o dobro da do Estado de Minas Gerais). Os resultados mostram o que se enfatiza há muito tempo: não há necessidade de mais escolas médicas no Brasil, muito menos em nosso Estado. O Brasil já é um dos países com maior número de faculdades de medicina no mundo. Quanto à questão da fixação do médico no interior, a pesquisa traz evidências curiosas. Na Região Sudeste, cerca de 54,2% dos médicos atuam nas capitais; no Estado do Rio de Janeiro, aparentemente cerca de 30% atuam no interior. Segundo os pesquisadores que analisaram os dados mostrados na obra, existe uma tendência de interiorização da atividade médica, pelo menos nos estados do Sudeste. Isso seria uma boa notícia, pois representaria uma tendência a melhor distribuição dos profissionais. Quando surge uma novidade dessa natureza, entretanto, é bom sempre destacar que a interiorização do médico, sendo necessária para a sociedade, tem de ser adequada também para o médico e sua família, para que não aconteça de se interromper em curto prazo, como já tem sido experiência em diversas situações. Outro ponto interessante é o que diz respeito à formação profissional. Na Região Sudeste, 77,8% dos médicos declararam na pesquisa terem feito algum curso de pós-graduação. Em especial no Estado do Rio os médicos procuram a pós-graduação, correspondendo tal parcela a 87,7% do total (situando-se em 78% no Brasil).


Contudo, constatou a investigação que vem caindo o percentual de médicos que cursam programas de Residência Médica. Em nível nacional, eles correspondem a 61,6%; na região Sudeste, são 61,3%; no Estado do Rio, apenas 57,9%. Tal informação não é boa, já que se sabe que a Residência Médica é a melhor forma de aperfeiçoamento médico na modalidade lato sensu (não sendo esta sua função precípua, mas, não obstante, na prática funcionando como tal, a Residência Médica corrige muitas deficiências trazidas por médicos inadequadamente formados). Os médicos do Estado do Rio que concluíram a Residência Médica foram 14,9% em Clínica Médica, 13,3% em Cirurgia Geral, 10,9% em Cardiologia, 9,4% em Pediatria e 7,2% em Anestesiologia. Dos que fizeram cursos de especialização, 15% optaram pela Cardiologia, 13,9% por Medicina do Trabalho, 4,7% por Anestesiologia e 4,6% por Dermatologia, as especialidades mais procuradas. Em nível nacional, para se ter uma idéia, 15% dos médicos se especializaram em Medicina do Trabalho, 9% em Cardiologia e 5,3% em Administração Hospitalar, os cursos mais procurados. O Registro de Especialista é obtido quando o médico registra no Conselho Regional de seu Estado ou o Título de Especialista (obtido na Sociedade de Especialidade) ou o Certificado de Residência Médica. Poucos sabem, mas ambos, em igualdade de condições, e com igual valor legal, podem ser registrados nos conselhos regionais para efeito de o médico obter oficialmente o registro na especialidade. Em nível nacional, a distribuição dos que ostentam tal registro é de 10,4% para a Pediatria e de 10% para a Cardiologia; em seguida, vêm Ginecologia/Obstetrícia, Anestesiologia, Cirurgia Geral, Urologia e Dermatologia. No Estado do Rio a ordem é a mesma, apenas se registrando o empate da Pediatria e da Cardiologia, com 10,4%dos médicos.


Ao serem inquiridos sobre a especialidade principal em que atuam, para os médicos da Região Sudeste a Cardiologia ficou em primeiro lugar, com 10,3% do total; a Pediatria veio em seguida, com 8,1%; após, a Ginecologia/Obstetrícia, com 7,5%, a Clínica Médica, a seguir, com 7% e a Anestesiologia, com 5,7%. Curiosas são as informações da crescente tendência à especialização em Urologia e em Dermatologia e do surpreendente salto empreendido pela Cardiologia, que se tornou a especialidade mais freqüentemente exercida no Rio, fato que também ocorreu em São Paulo e em Minas Gerais. No nível de pós-graduação stricto sensu, a pesquisa mostrou que os médicos da Região Sudeste estão buscando mais essa modalidade de aperfeiçoamento do que os médicos do restante do país. O Rio se destaca quanto ao número de mestres (21,4%), São Paulo quanto ao de doutores (12,3%). É curioso observar que a conquista da Residência Médica entre os médicos vem caindo, ao mesmo tempo em que cresce o número dos que cursam mestrado e doutorado. Sendo a medicina uma atividade científica de cunho fortemente aplicado, em que a prática é indispensável, seria importante revalorizar a Residência Médica em nossa profissão, lembrando que o perfil dos cursos stricto sensu em medicina no Brasil mudou drasticamente nos últimos 10 anos. Hoje não há mais relação de especialidade médica e curso de mestrado/doutorado em medicina. Esses cursos estão todos se estruturando em linhas de pesquisa, e o objetivo deles não é mais treinar o médico na parte acadêmico-assistencial de uma especialidade e sim habilitálo,seja no mestrado, seja no doutorado, a conduzir uma investigação científica, desde o momento de concepção do projeto de pesquisa (que transcende a especialidade, envolvendo conhecimentos diversos e multidisciplinares), até a sua publicação em revista de circulação internacional.


Por último, o estudo do CFM mostrou que os médicos cada vez trabalham mais. Na Região Sudeste, 72,2% exercem até três e 27,8 % quatro ou mais atividades semanais. No Estado do Rio 74,3% dos médicos possuem até três atividades semanais e 3,5% relatam cinco ou mais. Na pesquisa nacional, feita pelo CFM em 1996, não havia relato parecido. Quanto à remuneração, cerca de 58,2% dos médicos fluminenses informaram ganhar até 2 mil dólares mensais e somente 5,7% admitiram perceber mais de 4 mil dólares mensais. É pouco para tanto desgaste, para tão expressivo número de horas semanais trabalhadas e para tanta responsabilidade. Curioso é que muitos médicos não se dão conta dessa sobrecarga, talvez pela satisfação de estarem cumprindo uma missão, em curar e aliviar, talvez também porque a sociedade espera do médico certo papel mágico, supra-humano, resistente às intempéries, às frustrações e invencível pelo cansaço. Há algum tempo uma colega me procurou para ser examinada. Estava na faixa dos 45-50 anos, tinha 25 anos de formada e queixava-se de “extremo cansaço”. Procurara anteriormente alguns colegas, que excluíram a existência de diversas doenças, inclusive por meio de exames complementares. Ao ouvi-la, revi todos os exames feitos e pedi que descrevesse suas atividades. Soube, para meu espanto (mas não dela!) que cumpria, a essa altura de formada, 48 horas de plantões semanais, complementando a jornada com atividades em enfermaria, em ambulatório e em consultório, num total de quase 70 horas semanais! Tudo isso por remuneração mensal que não passava dos 5 mil reais. Além disso, era esposa e mãe de três filhos. Depois de examiná-la, eu lhe disse que havia chegado ao diagnóstico:”Você é um caso de R 25!”. Ela quis saber que nova doença era essa, e eu esclareci: o “R 25” era o vigésimo-quinto ano de Residência Médica – querendo com isso destacar que a colega, sem perceber, estava levando uma vida muito semelhante à de médico residente, numa fase onde a carga horária de trabalho é habitualmente muito intensa, pois objetiva principalmente formação, com a pessoa em pleno vigor e saúde. Era evidente a causa do cansaço de nossa colega, mas ela não percebia, pois o seu senso de responsabilidade e dedicação aos pacientes não permitia que ela, uma médica, se sentisse cansada – o que seria considerado plenamente natural em todas as outras pessoas, menos em médicos. Além dos aqui citados, muitos outros dados interessantes podem ser encontrados na publicação “O Médico e o seu Trabalho”. Pela excelente pesquisa, os meus efusivos parabéns ao CFM e à toda equipe envolvida.


PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Consultor Ad Hoc do CNPq e da Facepe
Editor da revista Conduta Médica



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