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Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Julho - Agosto - Setembro - 2014 - nº 61







Editorial



Pesquisas, Estatísticas e Medicina Personalizada


Sempre que posso, procuro alertar meus alunos sobre o valor dos testes estatísticos que são usados para testagem de resultados obtidos nas pesquisas dos trabalhos científicos publicados nas revistas médicas, porém também fazendo algumas ressalvas importantes.

A primeira é que, por mais elegante e  atraente que possa ser um teste, ele representa para nós, médicos, apenas um instrumento para se testar resultados, visando posterior conclusão. O que vale, mesmo, após o uso do teste, é a interpretação biológica, a interpretação médica dos resultados a que chegaram os autores em determinada pesquisa. Sem essa interpretação todo o esforço se perde, pois os números, em si, pouco ou nada costumam significar.

A segunda é que resultados de pesquisas, expressos em notações estatísticas, precisam ser relativizados e individualizados quando de sua aplicação na prática médica. Por exemplo: imaginemos que determinado trabalho de pesquisa médica, usando amostras metodologicamente adequadas, com grande número de indivíduos, aponte um resultado médio “x” para a dose ideal de uso de um medicamento ou mesmo o valor “y” para o nível médio de determinada substância plasmática que se pretenda dosar. Isso significa tão somente que aquele valor médio, “x” ou“y”, dependendo do que se quer determinar, atende o que se deseja para a média da amostra que participou da investigação. Em outras palavras, é útil para uso daquela maioria, talvez, de elementos que se situaram ao redor e bem próximo da média, mas não de todos.

Esses valores, "x" ou "y", não são os ideais para representar o fenômeno que ocorre com elementos da amostra que se afastam do centro, seja mais para a direita, ou mais para a esquerda de uma curva representativa de todos os elementos que participaram da pesquisa. Para lidarmos adequadamente na prática com esses indivíduos que se afastam da média, que ficam mais nos extremos, será necessário se fazer uma individualização, e certamente para eles os resultados “x” e “y” encontrados não serão os ideais. 

Isso é algo muito familiar aos velhos e experientes médicos que, em épocas mais passadas, mesmo desconhecendo estatística, intuíam o fenômeno que acabamos de explicar e, com isso, já tinham o hábito sedimentado de tratar das pessoas e não de um modelo, deslize que vemos hoje em dia ser tão comumente cometido. Isso porque não existe, praticamente, a rigor, o“doente” que representa o valor médio dos resultados obtidos nessas pesquisas. Esse “doente” na verdade é virtual. Quando se pretende transpor resultados de pesquisas para a prática clínica de maneira automática comete-se frequentemente tal equívoco.

Lembro-me neste momento de uma figura de um livro de Estatística aplicada à Medicina, muito didático, que li há pouco tempo e que, em tom jocoso, fazia uma brincadeira com os estatísticos, propositadamente, mas com o objetivo de ressaltar ao leitor iniciante como é importante aplicar o bom senso e ter o cuidado de individualizar os fenômenos quando da aplicação e interpretação adequada do conhecimento. A figura representava um homem em pé, com os pés mergulhados num balde onde havia uma substância inflamável pegando fogo; e sobre a cabeça do homem um outro balde, repleto de gelo. A frase ilustrativa dizia: “um estatístico é aquele que, tendo os pés a queimar e a cabeça a congelar garante que, na média, está tudo bem...” Perdoem-me meus amigos estatísticos pela brincadeira, que só tem a intenção de explicar algo complexo com o máximo possível de didática.

O bom médico, estou convicto disso, além das características tradicionais amplamente conhecidas e citadas, tem um tino especial para individualizar suas condutas e personalizar os tratamentos que prescreve.

Pois a boa notícia que tenho lido com crescente frequência é a de que a Medicina atual está caminhando para ser cada vez mais personalizada, em função de acontecimentos que estão emergindo das Ciências Básicas. O que vem a ser isso? Em primeiro lugar, deve-se destacar o grande mérito da Informática na evolução de todo esse processo de conquista. Além disso, o extraordinário progresso da Biologia Molecular, cuja aplicação prática tem se tornado a cada dia mais acessível. Para se ter uma ideia, o sequenciamento do genoma inteiro de um indivíduo nos dias atuais se aproxima do valor que pagaríamos por um eletrodoméstico de grande porte, não muito sofisticado. Suscetibilidades a doenças ou mesmo a reações indesejáveis a medicamentos são identificadas pela aplicação dessas modernas técnicas. A chamada “reprogramação celular” já está próxima de se tornar uma realidade. Através da Biologia Molecular, já se projeta a possibilidade de intervir na informação genética de células, redirecionando suas características e mesmo suas funções.

As chamadas “células tronco reprogramadas” podem se transformar em todos os tipos de células que existem no organismo de um indivíduo, o que permite a esperança de notáveis conquistas em breve para a Medicina, através também do estudo minucioso de diferentes tipos celulares de órgãos variados. 

Imaginemos o que isso poderá representar, dentro em breve, por exemplo, ao se poder testar, em cultura celular, na presença dessas células diferenciadas em tipos celulares de órgãos, medicamentos direcionados a doenças crônico-degenerativas que ainda não possuem um tratamento satisfatório! As aplicações em Farmacologia e em Oncologia são fantásticas.

Outro campo de notável uso desses elementos celulares seria a terapia celular. Pacientes com doenças crônico-degenerativas poderiam, teoricamente, receber“transplantes” de suas próprias células, agora reprogramadas para o tipo celular que se requer, dependendo do caso e da doença, e a gama de aplicações desses recursos é inimaginável. Torçamos para que esses avanços e sua introdução na prática ocorram o mais brevemente possível e que em pouco tempo atinjam o estágio em que todas essas conquistas da Ciência e da Tecnologia se tornem acessíveis aos pacientes, sem o que, como médicos, não podemos nos realizar completamente. Parece que uma nova era se avizinha. Para quem quiser se aprofundar um pouco mais no assunto, indicamos o excelente artigo“Reprogramação Celular e Medicina Personalizada”, de autoria dos professores Mario André C. Saporta e Stevens K. Rehen, publicado na revista “Ciência e Cultura”, ano 66, número 1, páginas 4 e 5, ano de 2014.



PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO

Professor Titular do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Ciências Médicas da UFF

Doutor em Endocrinologia pela UFRJ

Editor da revista Conduta® Médica







 








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