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Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Outubro - Novembro - Dezembro - 2013 - nº 58






Editorial



Medicina Personalizada



(ou “Não há Doenças e Sim, Doentes”)



Diziam os antigos médicos: “não há doenças, há doentes”. Sábia afirmativa, endossada por qualquer médico experiente e bem preparado dos nossos dias. Nas faculdades de Medicina, contudo, começamos a aprender pelas doenças. Só quando o médico já se encontra bastante experiente, em geral, é que começa a perceber que os antigos tinham razão: há doentes, não doenças!



Essa aparente contradição é clássica no ensino da Medicina, mas – a julgar pelo que estamos assistindo – vai deixar de existir muito em breve. Não tarda a época em que o estudante e o jovem médico estarão convictos, já a partir do curso médico, de que não há doenças, há doentes. E de onde vem a novidade? Dos extraordinários avanços da Genética, principalmente nas últimas décadas e, em especial, do marco que foi o sequenciamento do genoma humano. Hoje já se fala, na rotina médica, em Medicina Personalizada.



O conceito parece novo, mas é muito antigo. Era defendido por Hipócrates, Galeno, Avicena e preconizado por todos os grandes mestres que a História da Medicina registra. Para citar um mais contemporâneo, sugerimos ao leitor consultar a vida e obra de William Osler. Trata-se de conceito também largamente defendido pela Medicina Psicossomática, pela Homeopatia e por outras racionalidades médicas que buscam ver o paciente como um todo.



A Medicina Personalizada seria possível a partir do momento em que testes genéticos estariam disponíveis a custo acessível, permitindo saber, por exemplo, que doenças teria o indivíduo maior propensão a desenvolver em função de seu patrimônio genético e que remédios atuariam mais adequadamente em seu organismo. Isso já começa a ser disponibilizado em nível comercial, permitindo a feitura de perfis de análise genética que podem indicar, por exemplo, risco de doenças metabólicas (como diabetes e dislipidemias) e de aquisição de deficiências nutricionais, além de preditores de risco cardiovascular, de doença arterial periférica, de doença arterial coronariana, de infarto agudo do miocárdio, e de desenvolvimento de mal de Alzheimer, asma brônquica, esclerose lateral amiotrófica e diferentes tipos de câncer.



Em recente artigo de Fred Furtado, a revista “Ciência Hoje”, porta-voz da SBPC, a maior sociedade científica brasileira, traz no endereço http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/07/uma-medicina-so-sua interessante reportagem focalizando o famoso biólogo israelense Aaron Ciechanover, ganhador do Prêmio Nobel de Química de 2004 por seus trabalhos no terreno da degradação e reciclagem das proteínas.



Ciechanover, que trabalha no Instituto de Tecnologia de Israel, é autoridade na área da “Medicina Personalizada”. Em recente encontro de ganhadores do Prêmio Nobel, ocorrido na Alemanha, Ciechanover falou sobre os grandes avanços ocorridos na Medicina mais recentemente, a partir do momento em que se observaram respostas diferentes, de distintos indivíduos, ao mesmo tratamento. Segundo ele esclareceu, um mesmo tipo de câncer, específico, pode ter variações múltiplas: A, B, C, D,...,N...; os perfis genéticos são distintos. Dessa forma, as respostas à terapêutica são também diversas.



Por isso mesmo, o perfil genético de um paciente com câncer, ao ser identificado, poderia auxiliar na escolha do melhor tratamento para ele, ainda mais que esses testes ficam, a cada dia que passa, mais baratos, aumentando sua disponibilidade na prática. Isso abre a chance de identificação de marcadores moleculares para diversas doenças, segundo Ciechanover não só genéticos (genoma) mas também proteicos e metabólicos (proteoma e metaboloma). A Medicina Preventiva terá seus horizontes dilatados. Isso, porém, gera polêmicas.



O grande ponto polêmico, alertado ainda por Ciechanover em sua conferência, é a questão bioética. Para viabilizar essa Medicina Personalizada há necessidade de grandes bancos de dados com registros de genomas dos pacientes. A garantia da segurança dessas informações é frágil. São informações sigilosas, não imunes, por exemplo, a vazamentos, que poderão acontecer. Lembrou ainda, em sua palestra, o caso recente da atriz norte-americana Angelina Jolie que – após anunciar possuir marcador genético que aumentava em muito suas chances de desenvolver câncer de mama – resolveu se submeter à retirada preventiva de suas glândulas.



Como se vê, essa nova tendência da Medicina levanta diversas questões, não só no campo biológico, mas também no ético e jurídico, que deverão entrar em interessante debate, como costuma acontecer com muitas novidades que têm surgido na Medicina contemporânea. É, porém, curioso e interessante constatar que o avanço da Ciência está permitindo ratificar o que intuitivamente e por experiência própria os grandes médicos do passado davam como certo: não há doenças, há doentes.



Também gostaríamos de registrar aqui, para nossos leitores e colaboradores, que o site de nossa revista (www.condutamedica.com.br) atingiu recentemente a expressiva marca de mais de 5 mil visitas mensais, o que nos enche de satisfação, mostrando que a publicação tem cada vez mais atraído a atenção dos colegas, atingindo seu papel de educação médica continuada de qualidade. Voltamos a lembrar que, no site, o leitor poderá ter acesso a números publicados anteriormente e também às normas de publicação, para aqueles que desejam submeter seu artigo à apreciação da editoria e do corpo editorial da revista.



PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO

Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF (Niterói-RJ)

Doutor em Endocrinologia pela UFRJ

Editor da revista Conduta® Médica





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