Home
Outubro - Novembro - Dezembro - 2014
Ano XVI - nº 62

Janeiro - Fevereiro - Março - 2008 - nº 35

Editorial


Medicina Experimental e Pesquisa com Animais



Nos últimos dias a comunidade científica (em especial a médica) assistiu a um intenso debate, motivado por polêmicas decisões, envolvendo a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro e o Poder Executivo Municipal, sobre a questão das pesquisas com animais em laboratório. Entre idas e vindas, as pesquisas com animais de laboratório chegaram a ficar seriamente ameaçadas, fazendo com que a comunidade científica e diversas entidades de pesquisa médica se mobilizassem para impedir que investigações importantes em animais, executadas em instituições sérias, tradicionais e com reconhecimento internacional, situadas no município do Rio de Janeiro, fossem interrompidas. A polêmica mobilizou sociedades científicas, que no momento pressionam o Congresso Nacional para aprovar um projeto de lei que disciplina as pesquisas com animais e que tramita vagarosamente há mais de 12 anos nos tortuosos meandros da instituição. O projeto de lei disciplina as pesquisas com animais, punindo maus-tratos e estabelecendo normas, obedecidas as quais esses experimentos podem ser realizados. É bom que se diga que as pesquisas com animais, desde que Claude Bernard inaugurou a medicina experimental, na França, em meados do século XIX, contribuíram muito mais para o avanço da medicina do que as pesquisas que desde então também têm sido realizadas no homem. Antes de Claude Bernard, há registros históricos de experiências com animais para obtenção de objetivos médicos. Alcmeon, Herófilo, Erasístrato, Hipócrates, Galeno e Harvey, entre outros, experimentaram com animais para tentarem entender o ser humano. Consta que Claude Bernard chegou a extremos, no seu entusiasmo, sacrificando a cadela de estimação da família, o que lhe valeu séria crise conjugal e fez com que sua esposa fundasse a primeira sociedade protetora dos animais de laboratório de que se tem notícia.


É inegável que há argumentos de ordem técnica e de ordem ética para que não se utilizem animais em experimentos. Nem sempre se pode garantir que os resultados de experimentos de medicamentos em animais, por exemplo, sejam os mesmos quando os medicamentos são administrados ao homem. Há pesquisas que se mostraram inúteis. Por outro lado, são inegáveis os avanços que a experimentação em animais trouxe para a medicina.



Desde a década de 1970, mais ou menos, têm-se intensificado as campanhas para disciplinar as experimentações com animais. Na Austrália, em 1975, Peter Singer lançou um livro que despertou movimentos pelos direitos dos animais; em 1978, a Unesco proclamou a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, em Bruxelas. Em outros países a legislação, nesse sentido, está bem avançada. Na Inglaterra há leis que remontam a 1800, protegendo animais de maus-tratos; nos Estados Unidos a legislação é rigorosa e é antiga.



O movimento em defesa dos animais teve um marco em 1959, com o lançamento do famoso livro de Russel e Burch, em que os dois pesquisadores sugerem a adoção dos três “Rs” frente a um projeto de pesquisa com animais. O primeiro “R” seria o de “replace”, substituir, em inglês – dizem os autores que, perante um experimento com animais, deveriam os cientistas pensar na possibilidade de substituir o animal por outro método, in vitro, por exemplo, que dispensasse o uso deles. Na atualidade já foram desenvolvidos diversos métodos para uso em pesquisas biomédicas que substituem perfeitamente os animais.


O segundo “R” seria o de “reduce”, reduzir em inglês – se não for possível ao investigador substituir o animal na experimentação, que ele tente usar o menor número possível de animais no experimento, o que já traduz um certo cuidado da parte do experimentador. Hoje em dia, com o extraordinário progresso das ciências estatísticas, desenvolveram-se técnicas que permitem a obtenção de resultados com significância mediante o emprego de amostras bem menos numerosas. Em muitas pesquisas, para se tirarem conclusões, não há sempre a necessidade de grandes números na amostra.


Por fim, propõem os autores o último “R”, o de “refine”, refinar em inglês. Com isso querem dizer que, se não foi possível substituir o animal por outro método e tendo se reduzido ao máximo a amostra, cumpre ainda que o experimento seja refinado, ou seja, que se adotem todas as medidas para dar o máximo conforto ao animal e que ele sofra o mínimo possível no transcorrer do experimento. Isso envolve sedação, anestesia, antisepsia, cuidados, boa alimentação, etc.


No Brasil, ao contrário de outras nações, não existe, até o momento em que estas linhas são escritas, uma regulamentação para pesquisas com animais. Há a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, que trata de pesquisas com seres humanos, mas que apenas diz que, antes de serem feitas nos seres humanos, as pesquisas devem ser feitas com animais. Há um decreto, de número 2465, de 10 de julho de 1934, que cuida genericamente de maus-tratos a animais, além de uma lei federal, de número 6638, de 8 de maio de 1979, estabelecendo normas para a vivissecção. Existe, desde 1990, um código de ética para pesquisas com animais proposto e adotado pelo Colégio Brasileiro de Experimentos em Animais, entidade privada que cuida do assunto.


Os associados desse órgão adotam seu código de ética. As instituições de pesquisa sérias já adotam tais princípios éticos há muito tempo. Elas possuem comitês aos quais os projetos de pesquisa com animais são submetidos e que fiscalizam os experimentos.


Não há dúvidas de que caminhamos para diminuir drasticamente o uso de animais em experimentação, e que esse é o caminho para o futuro, não só porque é a postura ética mais correta, como também porque o avanço da Ciência tem permitido a substituição de animais em pesquisas por outras técnicas menos agressivas e que não envolvem sofrimentos dos seres vivos. Entretanto, a medicina infelizmente ainda não pode dispensar a colaboração das pesquisas com animais em muitos setores vitais, com perspectivas de cura para graves enfermidades que acometem milhões de pessoas.


Uma lei federal disciplinando o assunto, contudo, é há muito necessária e evitaria os desencontros a que temos assistido nos últimos tempos.


PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF
Doutor em Endocrinologia pela UFRJ
Consultor Ad Hoc do CNPq e da Facepe
Editor da revista Conduta Médica



faça o download em PDF


Resumos desta edição

CLIQUE AQUI PARA LER OS RESUMOS DOS ARTIGOS PUBLICADOS NA EDIÇÃO 35


Página: [1]
2019 - Copyright - Laura Bergallo Editora Desenvolvido por: Corbata